Por que você não cala a anti-divulgação do personagem de plantão?

Parecia que não era bastante com Belen Esteban dando dicas de saúde, não é suficiente com o Mario Vaquerizo fazendo tweets sobre dietética, com Jorge Javier Vazquez anunciando suplementos sem evidência alguma, ou Mercedes Milá soltando sentenças nutricionais no rádio.

Demos mais um passo neste país de pandeiro, e isso acontece justo o dia em que o abandono de novo de forma temporária, alimentando a vontade de manter o mais longe de nossas fronteiras, em especial, as culturais e sociais. Daí que me tenha acordado do “Eles ficam, eles se vão”.

É compreensível (digo compreensível em um mundo sensacionalista que tem o pão e circo necrotizado até as entranhas, porque não há outra maneira de entendê-lo) que saiam famosos falando e sentando cátedra baseada em suas experiências pessoais que não hesitam em expressar como leis inabaláveis.

Quero contribuir com uma reflexão, não só sobre o papel que têm esses personagens na hora de enviar mensagens de texto (que geralmente podemos verificar que preferem encher os bolsos à custa de dar mensagens de saúde errados), mas também sobre o papel que desempenham os próprios meios. Neste caso, que trago à colação o blog, foi agitado ontem nas redes sociais, com especial menção para Laura Saavedra. O vídeo é o seguinte, corresponde à incorporação de Patricia Pérez a um programa de rádio:

Um extrato, que tal como definí ontem, me parece um lixo pretensioso. E não é faltar ao respeito da autora. É lixo como informação, e é pretensiosa pelas aspirações.

Patricia Pérez, foto da Telecinco.

Um meio grande (que não é grande mídia) como esRadio e em um espaço nas manhãs de Frederico, convidando essa pessoa na qualidade de especialista em Nutrição. O mínimo que se poderia exigir de um programa com um pouco de repercussão e com um volume considerável de ouvintes, é rigor. E se este rigor não se cumpre em algo como a saúde, magrela favor faz-lhe o rigor em outras facetas da mesma rádio. Esse fica.

Não vou entrar a valorizar a formação da pessoa, neste caso, atriz e apresentadora, já que, como defendi no post Devemos considerar intromissão quando se divulga em Nutrição? expus minha posição de que o importante é o rigor e o método na hora de divulgar. Mas claro, quando é divulgada (acima para as massas), sem qualquer rigor nem formação, a cédula é praticamente negligente.

Me parece que o mais interessante é fazer uma pequena revisão e comentário a alguns momentos da entrevista, que podem ser lidos conforme se reproduz o vídeo da intervenção de ontem. Aqui estão:

Excertos da intervenção de Patricia Pérez em esRadio:

01:14: Frederico lhe pergunta “Como você fez nutricionista?”
Não me quero imaginar qual teria sido o processo de seleção da referida empresa, quando o diretor do espaço não sabe, a formação de “especialista”, a apresentam como nutricionista, e se dirige a ela como nutricionista, no entanto, tal como vemos a seguir, não é.

1:20: Patrícia responde: “Nutricionista, como tal, não sou”
Bom, você não é “como tal ou como está”. É como se eu, que sempre tive um ótimo passatempo para os dinossauros desde pequeno, eu digo: “Paleontólogo, como tal, não sou, peeeero”

1:35: “eu Sou alérgica a alimentos e a algumas coisas”
Dá a sensação de que teve de se formar em nutrição, pois de tudo ele se sinta mal. As pessoas têm intolerância a alguns alimentos. Intolerâncias que, então, segundo nos conta, lhe derivam a uma pancretitis e a inflamação do fígado. Talvez, eram esses os motivos de suas más digestões?

02:20: Ótimo intervenção da companheira que dá idéia do nível que temos no palco: “os ácaros do pó eu sei que existem e os vê… mas a comida?”
Pessoalmente me choca que as pessoas aceitem a existência de um animal em pó, mas que sejam céticos que cresçam e se desenvolvam em comida. O lógico seria ser cético em sentido contrário, ou assumir que, claro, um artrópodo, que também é o culpado de muitas pragas alimentares, efetivamente, para desenvolver-se e reproduzir-se, coma!

02:45: “Eu tomo uma maçã e embora seja ecológica e limpa e tal…”
O que terá que ver com o fato de que a maçã biológica? Se uma pessoa é intolerante à lactose e não vai tolerar bem o leite seja de produção convencional ou biológica. Então, se você é alérgico ao ovo, não proves com os ecológicos, acreditando que terão menos alérgenos.
A produção biológica não afeta menos as alergias e as intolerâncias.

03:10 [Festival do abstemio]

Atenção 3:30, como entre o boa brincadeira Patricia diz: “veio, Porém, sim” Então em que ficamos? Você não dizia que não podia consumir álcool? Mas o vinho sim que pode?

3:55 “Há um monte de coisas que você não pode fazer se beber”
Como em nenhum momento se fala de uma droga ou de um consumo abusivo, assumo que falam de beber simplesmente, a mim só me ocorre uma coisa que você não pode fazer se você beber de uma vez: respirar.

[Parênteses para satisfazer o ego de Federico, que não foi capaz de intervir muito]

5:17 “Uma alergia real…”
Uau! É que há diferenciações entre alergias reais… a outra variante será o inventada? o fictícia?
A diferenciação entre o que se conhece as Reações Adversas aos Alimentos é:

Em primeiro lugar, diferenciar se são tóxicas ou não tóxicas. E dentro das não-tóxicas, podemos encontrar a diferença entre alergia e intolerância. Aqui você pode ver:

5:38 [MOMENTO ESTRELA] “A diferença a grandes traços entre intolerância e alergia é uma intolerância estás mal, mas muito mal, esses males me dói a barriga… […]”

Como você pode verificar, a gravidade dos sintomas, não é objeto de diferenciação, a certeza de que em vossa própria experiência pessoal conhecereis a pessoas alérgicas, mas que cursam com sintomatologia leve. E acrescenta
“Quando alguém lhe dá uma alergia fica vermelho fica sem ar…” Será quando ele dá uma anafilaxia.

6:15 “Há alimentos que porque têm muitos nutrientes e sejam saudáveis…”
Desde quando se mede a qualidade de um alimento pelo número de nutrientes que tem?

[Parênteses para falar da gravata de Federico, que lhe dás a mão, com um exemplo, e você pega o braço]

7:25: Disse não estar de acordo em que em um mesmo prato tenha diferentes ingredientes. Não acrescenta nenhum argumento. Normal, não os há.

08:00: “Eu acho que comer rápido não é saudável”
Acho engraçado que as pessoas começam a acreditar em coisas falando de nutrição. Por que não pergunta para estudos, ou por que não olha recomendações de saúde pública?
Não é mais fácil dizer “não se recomenda comer rápido”? Há que adicionar necessariamente uma crença havendo informação disponível desenvolvida por profissionais?

08:05: “O corpo tem uma ordem por dentro”
De fato, o corpo tem um fim, mas não é uma ordem mística: organiza-se em tecidos, sistemas, aparelhos… Mas essa coleção de palavras que acrescenta em seguida é falatório emoções e pseudo-científica, que evoca a ordem e a harmonia.

08:28 “Por isso, não misturar muitos alimentos é melhor”
Tudo baseado em seu argumento de ordem, nenhuma justificativa baseada em dados.
A mim sim, que me ocorrem motivos para misturar alimentos: Facilidade de equilibrar a dieta, evitar mais facilmente falhas, complementação de aminoácidos de proteínas de qualidade diferente (evitando aminoácidos deficitários), para minimizar os efeitos pouco saudáveis de alimentos (efeito “esponja” de fibra a nível intestinal), aumentar a biodisponibilidade de micronutrientes… (vitaminas lipossolúveis, minerais…)

8:40: [Momento Oh my god!]
Eu acho que esse número reflete apenas, e a verdade é que daria para 5 ou 6 entradas diferentes. Frederico fala do debate tão de moda de Alimentos quentes e frios” curioso que esse grande debate, não tenha uma discussão científica por trás dele, nem que estejamos todo o dia discutindo novos avanços sobre ela.

Frederico comenta a medicina de Hipócrates, é dizer: o único momento de fisiologia do bate-papo é uma teoria antiga que referia que o nosso corpo era o resultado de 4 substâncias: “sangue, bílis amarela, bílis negra e fleuma”. Diria a Frederico que se atualizar um pouco.

Não ficando neste único conceito arcaico, vamos com um pouco medicina oriental e de ying e yang:

-“Eu sou uma pessoa que tende a ter um metabolismo lento, a reter líquidos” no comment.
-“Se eu fosse uma pessoa que tendiera… de uma típica pessoa que está como seca, que é nervosa, que tem pouca, pouco líquido, que é muito fibrosa… essa pessoa sim que seria bom algo um pouco mais frio. Porque sempre tem que tender a buscar o equilíbrio, então cada um de nós tem que nos ver e dizer bem…
-“Então, se um é frio e tenso é muito yang, e você tem que colocar um pouquinho de ying”
-“Isto é”

-“O morno tende para o centro e sempre se regula”
– “E se você não gosta do morno?”
-“Então o que você tem que tentar misturar os alimentos”

Vá se achávamos que era ruim para misturar alimentos, segundo ela! Agora você tem que fazê-lo se não gosto do morno.

“Agrião, cônegos e rúcula são bastante quentes puxando a quente […] a alface iceberg é fria”
Qual o critério usado para a classificação de quente e frio? Porque o que parecia temperatura agora toma outro sentido, verifica-se que estes vegetais são quase quentes, independentemente de como os preparar.

10:54 [Único momento sincero de bate-papo]
“Bem, o que nos resta aprender”

Nada a acrescentar, totalmente de acordo, têm muito o que aprender.

Por outro lado, em seu blog, o que não lhe vou dar um link de saída, podemos verificar que é uma pessoa que, além de dizer um disparate no rádio, diz estar de acordo com um livro como A Enzima prodigiosa, a sua justificação: “todas as enzimas são grandiosas” e “as enzimas são as chefas”. Em seu lugar, proponho três revisões da Enzima prodigiosa, de Centinel em seu blog “O que diz a ciência para o emagrecimento”, Mulet em “produtos naturais” e a de João Revenga em “O nutricionista da geral”.

A partir desta entrada, faço uma reivindicação, um apelo à sanidade, não podemos permitir este tipo de lixo de divulgação em nossos meios, é uma autêntica vergonha que meios que pretendam divulgar mensagens de saúde recorrerem a pessoas sem nenhum tipo de rigor (e enfatizo a rigor, eu não falei em nenhum momento de formação, que se vem à mão, muito melhor). Muito diferente é transmitir uma mensagem corretamente necessitando de uma formação, que se pode fazer, e grandes divulgadores e jornalistas fazem.

Este episódio de rádio é um exemplo lamentável de pouco rigor científico, de não contrastar a informação, e o pior de tudo: ANTI-DIVULGAÇÃO. Já que não só não divulga as diretrizes com evidência, mas que idiotiza as pessoas que o ouvem, tanto no fundo (a mensagem em si não é válido) como na forma (des-educándolo no espírito crítico).

Fazei-nos um favor, aos divulgadores, os cientistas e a população, mas, sobretudo, reflexionad. “Por que não te callas?”

Se você gostou compartilhe e divulgue!

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